O Instrumento desafinado

 


Por anos vivi na superfície de mim mesmo, sem perceber. 

Em algum momento, cansei do entretenimento no qual gastava meus recursos, apesar do apelo das novidades que sempre se renovavam.

Percebi que, além do ruído que me entretinha, existia algo acontecendo. Precisei aguçar a minha percepção sobre aquilo porque não me era facilmente identificável.

Deparei-me então com o paradoxo de que havia um maravilhoso concerto, com músicas, cenários, histórias e personagens, como tudo o que se espera de uma grandiosa obra. Amores, traições, dramas e tristezas. E era essa obra que servia de suporte ao entretenimento no qual me perdi por tanto tempo.

Surgiu a vontade de também participar deste concerto magistral, não da maneira inconsciente como sempre estive, mas de maneira consciente, contribuindo. Ah, que pretensão!

Meu instrumento estava desafinado. As cordas entre o coração e a mente não eram capazes de acompanhar tão sublime melodia: era impossível para mim ser convidado a ocupar o lugar que desejava. Cada ressoar do meu ser era como um acorde desafinado que gritava desespero.

Então, comecei o trabalho de cuidar desse instrumento para que cada nota por ele entoada pudesse ressoar de maneira harmônica com o concerto divino.

Fiz o que pude e, apesar dos meus esforços, constatei que por mais que me esforçasse, o anseio do coração nunca era atendido. Sentia-me perdido, apesar de sempre seguir adiante em minha busca pelo meu lugar.

Mas saber que o concerto divino existe não te dá o direito de conhecer o próximo ato.

Foi nesse momento que Guruji surgiu na minha vida e me fez perceber que minha perspectiva estava errada. Vejo como era pretensioso em minha autossuficiência. Aos poucos fui percebendo que eu não detinha os recursos para afinar como necessário.

Não sou eu quem afina o instrumento, sou apenas o instrumento que está aprendendo a se entregar.

Certa noite, então, sem esperar, fui convidado por breves instantes a testemunhar a grandeza e a perfeição de toda a criação. E percebi que há ainda muito a (se) estudar, a (se) entregar e a (se) afinar para me tornar digno de contribuir com a Dança Cósmica.






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